MAQUINÁRIO COMPUTACIONAL E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

No artigo Computing Machinery and Intelligence, publicado na Revista Mind, em 1950, Allan Turing pergunta: Podem as máquinas pensar?

Turing se esquivou e não respondeu à pergunta, pois isso implica em definir primeiro o que são “máquinas” e também o que é “pensar”. Ao invés disso ele substituiu a pergunta por outra em que questiona se uma máquina seria capaz de tomar o lugar de um ser humano e se passar por ele sem ser reconhecido por um interrogador humano, o que implica em responder se é possível a criação de uma inteligência artificial.

Antes de responder se uma máquina seria capaz de imitar a inteligência humana, é preciso clarificar o que deveríamos entender por “inteligência”. O termo “inteligência” pode (pelo menos ainda não encontrei um princípio diferenciador) ser equiparado à “razão”.

Segundo o filósofo alemão, Immanuel Kant, o nosso intelecto possui duas faculdades distintas e heterogêneas: o entendimento e a razão. De acordo com Kant (2013, p. 300), “se o entendimento pode ser definido como a faculdade de unificar os fenômenos mediante regras, a razão é a faculdade de unificar as regras do entendimento mediante princípios”.

Desse modo, enquanto o nosso entendimento pode ser compreendido como uma faculdade de regras, e esta faculdade pode ser equiparada à de uma máquina, pois é uma mera faculdade lógica, a razão pode ser compreendida como uma faculdade de princípios, e esta não pode ser imitada por máquinas e só pode ser exercida por seres racionais (ou inteligentes).

É controversa a natureza dos princípios e como eles se diferenciariam das regras, mas pode-se dizer que o princípio é a regra pela qual se criam novas regras ao infinito. Se o princípio não se estende ao infinito então não é um princípio, mas uma regra geral.

Por exemplo, pode haver na nossa legislação uma regra que determine que “pessoas idosas e estudantes terão descontos nas tarifas de ingresso no cinema”. Muito embora essa regra não tenha ainda materialidade (não está definido o que é “idoso”, o que é “estudante”, o que é “cinema” e quanto será o desconto), é perfeitamente possível especificar e admitir que tudo isso se refere a uma quantidade finita de objetos e situações, donde que ela deve ser considerada uma regra geral e não um princípio.

Mas quando temos, por exemplo, a boa-fé, a moralidade, a utilidade, a felicidade, dentre outros, tudo isso se refere a instruções para regras de ações concretas que podem se aplicar a uma infinidade de situações, ou mesmo que sejam finitas, não conseguimos vislumbrar um limite, tanto quanto não conseguimos fixar um limite para o espaço e para o tempo.

O homem, a cada dia, se depara com uma série de novas situações que ninguém tinha vivenciado até então, e se faz necessário que ele subsuma regras novas para lidar isso, regras que até então não existem, que precisam ser criadas do nada, e quem faz isso é a inteligência.

Além disso, os seres inteligentes possuem a faculdade de julgar, ou seja, a faculdade de poder escolher esta ou aquela regra (ou máxima), dentre muitas disponíveis que já conhece ou que a razão pode criar, que seja adequada a cada situação concreta e ao seu interesse. É uma faculdade que Kant associou ao “bom senso”, e sobre tal faculdade ele escreveu:

“Se essa lógica quisesse mostrar, de uma maneira geral, como se deve subsumir nestas regras, quer dizer, discernir se algo se encontra ou não sob a sua alçada, não poderia fazê-lo sem recorrer, por sua vez, a uma regra. Esta, sendo uma regra, por isso mesmo exige uma nova instrução por parte da faculdade de julgar; assim se manifesta que o entendimento é, sem dúvida, susceptível de ser instruído e apetrechado por regras, mas que a faculdade de julgar é um talento especial, que não pode de maneira nenhuma ser ensinado, apenas exercido. Eis porque ela é o cunho específico do chamado bom senso, cuja falta nenhuma escola pode suprir. Porque, embora a escola possa preencher um entendimento acanhado e como que nele enxertar regras provenientes de um saber alheio, é necessária ao aprendiz a capacidade de se servir delas corretamente e nenhuma regra, que se lhe possa dar para esse efeito, está livre de má aplicação, se faltar tal dom da natureza. Assim, um médico, um juiz, um estadista podem ter na cabeça excelentes regras patológicas, jurídicas ou políticas, a ponto de serem sábios professores nessas matérias e todavia errar facilmente na sua aplicação, ou porque lhes falte o juízo natural (embora lhes não falte o entendimento) e, compreendendo o geral in abstrato, não sejam capazes de discernir se nele se inclui um caso in concreto ou então também por se não prepararem suficientemente para esses juízos com exemplos e tarefas concretas.” (KANT, 2013, p. 177-178, grifos em itálico originais)

Podemos então nos perguntar: será que nós, homens, somos seres inteligentes?

É fato que o homem até agora sempre alargou o seu pacote existencial e sempre se reinventou, adotando novas regras que aos poucos desenvolveram as tecnologias, a cultura, as artes, modificando o seu modo de viver. Cabe ainda observar que os outros animais não são assim, ou seja, eles vivem conforme os dons que a natureza lhes deu e não os expandem. Por mais engenhosa que seja a construção da represa pelo castor, ou a casinha do joão-de-barro, por exemplo, e que aliás, ninguém ensinou, ele nunca aprimora as suas técnicas. São as mesmas construções hoje como eram há 2000 anos.

É fácil perceber que com o homem nunca foi assim e ele continua alargando o seu pacote existencial em um progresso que parece que não terá fim, o que nos leva então ao questionamento: será que esse alargamento não terá mesmo um fim?

Se tiver um fim é porque a inteligência em nós é ilusória. A razão será apenas um “entendimento aperfeiçoado” e a nossa pretensa faculdade de princípios estará reduzida a uma mera “faculdade de regras gerais”. Mas se não tiver fim, então certamente o homem pode ser considerar um ser inteligente, racional e um fim em si mesmo na Criação. Não há meio termo.

Cabe observar que, se há inteligência em nós, essa faculdade deverá estar necessariamente situada na alma, visto que os nossos cérebros são materialmente limitados. Desse modo, pode-se afirmar que a inteligência é uma faculdade da alma e não do corpo.

Então podemos concluir que uma máquina nunca será inteligente. Falta-lhe a infinitude. Podemos até desconhecer os nossos limites, mas a máquina que nós construímos sempre será materialmente limitada, não podendo, por isso, ser inteligente.

O que há e haverá são máquinas com regras cada vez mais sofisticadas, capazes de aproximar e imitar muitos dos comportamentos dos seres racionais, mas jamais capazes de igualá-los. A sua faculdade de regras jamais será uma faculdade de princípios.

Considero também altamente danoso para o entendimento denominar esses projetos engenhosos de “inteligências”, porque induz ao erro muitas pessoas sobre a verdadeira natureza desses objetos, confundindo-os com pessoas. A Arábia Saudita, por exemplo, em 2017, concedeu cidadania a um desses artefatos, o Robô Sophia.

Dessa forma, se aceita a explanação anterior, teremos que concordar que a inteligência é uma faculdade da alma, não podendo, por essa razão, ser reproduzida em uma máquina, por mais sofisticada que ela seja.

Também são ilusórias, penso, todas as especulações e pretensões que sustentam que seria possível construir uma máquina que pudesse passar pelo teste de Turing. Ainda que ela memorizasse muitos comportamentos, cedo ou tarde apareceria uma situação não prevista no seu banco de dados, que ela não saberia julgar, e isso denunciaria a sua natureza não inteligente.

REFERÊNCIAS

ANDRÉ, Mário Rui. A robô Sophia não é assim tão inteligente. Shifter. Lisboa, 12 nov. 2017. Disponível em  https://shifter.sapo.pt/2017/11/robo-cidada-sophia/. Acesso em 30 mar. 2019.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 8. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2013.

TURING, A. M. Computing Machinery and Intelligence. Mind, 49, p. 433-460, 1950. Disponível em:  https://www.csee.umbc.edu/courses/471/papers/turing.pdf. Acesso em 30 mar. 2019.

Contribuiu para este artigo Rafael Gasparini Moreira 

Bons Negócios !!

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